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Cá entre nós
Lúcia de F. Henriques

Confesso que me sinto mais sozinha do que jamais me senti. Confesso que todos os meus pensamentos sobre liberdade, sobre; seguir o coração; sobre;não ter medo de ser feliz; toda essa balela sempre caem por água uma hora ou outra. E se quiser um conselho, pense, calcule, defenda-se. Se eu tivesse feito assim, não o teria visto partir com pesar. Como me arrependo de ter deixado a cabeça pra trás, de ter seguido a vontade do corpo e os ímpetos do espírito . Meia dúzia de noites junta? Isso foi o mínimo. O problema e que eu abri minha alma, eu deixei que ele entrasse na minha vida pelos poros, deixei que me arrancasse o vestido e as defesas. O problema e que eu não tive medo. E eu até me gabei disso por um tempo. Senti-me no topo das mulheres pelo meu equilíbrio emocional, pela minha independência feminina e pela minha coragem. Mas agora que ele partiu, nada disso me faz companhia, e eu simplesmente me sinto só.
E confesso que não choro pela ausência dele na sombra do meu quarto escuro. Pensando bem, confesso que se me desesperasse, se jogasse os cristais as paredes, gritasse alto o nome dele e rompesse em soluços, talvez eu me sentisse melhor. O que me incomoda mais e essa tristeza velada, esse nó na garganta que nunca se desfaz, a prova mais profunda de que meu espírito esta calejado, de que não me acabo mais no presente por aquilo que já me feriu tantas e tantas e tantas vezes. E triste um espírito calejado, são tristes as coisas a que ele remete.
Confesso que se não o chamo de traidor, se não esbravejo a deslealdade e a patifaria que ele me cometeu, não é pela grandeza de meu espírito. Eu o xingaria dos mais variados nomes se ele tivesse me traído, se tivesse sido desleal ou patife - e seria um bom consolo. Mas ele foi justo, correto, sincero. Não me manteve atada a um relacionamento acabado por nem mesmo 5 minutos. Informou-me gentilmente do fim, com toda a educação e classe que me era merecida. Confesso que preferia sentir-me revoltada a indiferente. Mas já não e a primeira vez que não me restam muitos caminhos a optar.
Por isso continuo afirmando: o seu corpo e realmente seu, faca dele o que bem entender. Vulgarize sua boca e todo o resto se quiser, você é realmente livre pra fazer isso. Mas não vulgarize o seu amor. Não banalize o que pode ser único, pense antes de chamar qualquer par de calças de seu. Pode não significar nada uma vez, mas quando não significar nada por 25 vezes, você vai se sentir vazia.
E confesso que cansei de conversar, agora esta frio e quero ouvir o Chico. Não se afobe não, que nada e pra já. A voz do Chico sempre me acalenta os desamores. Vou deitar na cama vazia e pensar em nada até dormir, por que amanhã sempre da para pensar em algo melhor do que nada. No tempo, no trabalho, no estresse. Vai parecer que nada aconteceu. E isso que eu quero que pareça.
Então você não conta pra ninguém, e assim parecerá.

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Tecnologia pura
Autor: Sérgiol Luis da Silva Vargas

- Bom dia compadre!
- Bom dia!
- Me conta compadre, como é que foi a chuva por lá?
- Bah, compadre! Foi coisa feia. Muito granizo. Perdi toda minha lavoura de fumo.
- Que coisa mais triste compadre! Eu por aqui tive um prejuízo danado, perdi toda minha lavoura de milho e mais a granja dos frangos que ficou toda furada. Morreram pra mais de mil pintos.
- O estrago foi muito feio, compadre...
- É! Com toda esta tecnologia, nos ainda dependemos da sorte para mantermos nossas culturas.
- E quem é que pode contra a natureza, compadre? Não viu lá nos Estados Unidos, país rico, cheio de recursos, o estrago que deu?
- Contra as forças de Deus não há tecnologia que dê jeito, compadre!
- E por falar em tecnologia, o amigo sabia que a Chiquinha, filha do compadre Anselmo, engravidou?
- Não sabia não compadre! Mas como?! Se a guria não tinha nem namorado?
- Não tinha mesmo!
- Então como é que foi pegar barriga, ora?
- Compadre Anselmo me disse que foi esta tal de internet!
- Ué! Mas pode?
- Acho que sim. Esta internet é poderosa! Noutro dia ouvi no rádio que lá em São Paulo roubaram até um banco...
- Pois eu ouvi também!
- E se assaltam um banco, como não haveriam de fazer um filho, que é coisa muito mais simples?
- É compadre, acho que é possível mesmo!
- Minha esposa, a Maria, queria porque queria que eu comprasse pra nós, um destes computadores, mas acho que não vou comprá-lo não, vai que ela também engravida e nasça por lá um guri com os olhinhos puxados? Como é que eu vou explicar para os vizinhos?
- É! Vai ser difícil explicar mesmo.
- É melhor nos vivermos na ignorância do que mal falados!
- Ah, isto é mesmo.
- Até mais ver, compadre!
- Até mais ver!

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Especial para Aniversário de P. Venceslau
AS ÁGUAS DA VIDA
(*) Por:
Paulo Francis. Jr

Depois de passar pelo centro da cidade, o objetivo era chegar ao Jardim Ipanema. O sol forte do meio-dia era o que motivava o sacrifício de Francisco Hidelbrando Caruzo. Seu apelido era “FHC” numa alusão ao ex-presidente. A temperatura de 32 graus significava esperança. Quando ainda estava em casa, cedinho, o locutor de notícias E. Junior dizia a previsão. Dez minutos de atenção ao noticiário davam a ele, informação e projeção de ganhos do dia. Atentava não aos altos e baixos da Bolsa de Valores, mas à temperatura que ditava a sua profissão.
Da Rua Campo Sales entrou à direita. A Rua Rodrigues Alves começa “maneira”, mas é longa.
A falta de óleo, só observada agora, deixa transparecer um rugido não tão alto. O contacto entre o eixo de ferro e a roda do seu carro precisava de urgente manutenção.
Logo que iniciou a subida teve que parar. Desesperada, uma menininha gritava ao longe. O assobio característico, peculiar à profissão, atraiu a garota.
Trajando um vestido listrado e um tênis de grife, pediu duas “massinhas” a Francisco. Márcia o conhecia. Apesar da pouca idade, assim que se aproximou fez questão de cumprimentá-lo.
Logo depois, de forma inusitada, perguntou, como se o repreendesse:
- O Sr. não veio quarta-feira?
A menina esperava uma justificativa. Vontade infantil não pode ser adiada.
Com um sorriso cativante, Hidelbrando tratou logo de esclarecer.
- Marcinha, apesar dos meus 66 anos, ainda não consegui me aposentar. Quarta-feira estive lá na Previdência tentando receber o benefício. A greve atrasou o processo todo. Na segunda-feira um médico fará uma avaliação sobre o meu problema na perna. Tentei me aposentar pela idade, mas não consegui. Você sabe como são “as coisas” neste país. Está difícil para mim. Entreguei um “monte” de documentos lá, mas até agora nada! Ouvi falar que o ministro está querendo deixar a gente sem receber. Esse é “sangue ruim”. Não respeita nem os “veinhos”.
Como se fosse “gente grande”, a garota virava o rosto para um lado e para o outro, como se estivesse indignada. Despediu-se e desceu a rua segurando o produto, reclamando do frio em suas mãos. Dizia estar com pressa, pois o irmão a aguardava.
Ao andar mais alguns metros, um automóvel se aproximou. Um Sr. forte com uma mulher. No banco traseiro, um garoto apontava, sorridente, na direção de Francisco. Ele observou os olhos da criança. Brilhavam!
Os passageiros do carro foram atendidos pela janela. Acabaram de comprar os picolés e estacionaram um pouco adiante.
FHC ou “seo Chico”, como era conhecido também naquela região, viu, logo depois o motorista reclamando do filho, pois havia deixado um ou dois pingos caírem no estofamento. Talvez fosse esse o motivo da parada.
Com o apito característico, a subida continuava.
A Vila Baruta é um local nobre. Seus moradores pacatos formam uma das elites da sociedade; fato que, por dedução, traz tanta motivação a profissionais como Hidelbrando. Como se diz por aí, apesar de “puxar uma perna” devido a um acidente não se deixava vencer pelo calor. A trajetória tinha que ser cumprida.
Um chapéu lhe cobria a cabeça. De origem européia, uma vermelhidão fazia parte dos braços, resultado do escaldante sol nesse mês de setembro, mais com “cara” de verão que primavera.

Tendo andado mais dois quarteirões, resolveu dar uma pausa por um instante.
Bem ao longe, um carro de som, provavelmente de algum político, dava a impressão de se aproximar. O descanso, a mão envolta na orelha, tentava decifrar o postulante.
Com a parada, o rugido do eixo de seu veículo não existia, entretanto, a distância dele ao “carro da política” era muito, muito grande.
Passados mais alguns metros, entrou à esquerda. As pedras sextavadas do calçamento fizeram aumentar o ruído, que o impedia de ouvir o som da propaganda. A roda, de borracha sintética, era dura e fazia que as vibrações deixassem suas mãos trêmulas.
Desde jovem, a política sempre lhe chamou atenção. Por isso, gostaria de saber quem era o candidato. Como ainda não definiu o seu voto, queria analisar todas as propostas o que lhe fazia prestar ouvidos a todos. De repente, ao chegar na Rua Boa Vista, resolveu estacionar o carrinho de picolés. O suor lhe desceu a fronte. Abriu dois botões de sua camisa. Com as mãos abanava o rosto. O tronco cortado de uma árvore serviu-lhe como cadeira.
Francisco observou na esquina, onde se localiza a capela do bairro, uma senhora idosa, passando tranqüilamente coberta por uma sombrinha. Pensou consigo mesmo: “essa mulher parece uma vizinha lá da Vila Sumaré”. Perguntou “aos seus botões” se agora estaria morando por ali. A passos largos, a mulher desapareceu, virando uma outra rua.
O braço esquerdo de Hidelbrando foi agitado para que o relógio fosse para uma posição visível e bem próximo ao olho, pois a sua vista estava meio “embaçada”. Com certa dificuldade, constatou: l3: l5 horas.
Com a mão direita, retirou um pequeno rádio do bolso – vulgarmente conhecido como “consola”- mas não houve tempo para ligá-lo. Ouviu alguns passos. Era uma mulher que caminhava por trás de um muro não tão alto. Uma jovem que cumprimentou-o. Em seguida, o ruído de um esguicho de água foi ouvido por ele.
Com uma vassoura, a limpeza estava começando. A lavagem da calçada naquela tarde quente, no entender do sorveteiro significava desperdício, mas... O que poderia fazer?
Assim, logo depois, o líquido surgiu forte por um orifício. O volume era razoável.
Entre a sujeira das folhas secas, trazia um velho bico de mamadeira. Desgastado pelo uso e com o látex rachado, não servia para mais nada. De forma aleatória, a enxurrada que ali se formou empurrou-o para a sarjeta, chamando a atenção de Francisco.
Por um outro buraco, panfletos políticos surgiam sobre a água. A foto do “santinho” mostrava a cara do pecador. Um candidato que pecava já pelo motivo de ser de outra cidade. Um pára-quedista!
Olhou o que estava acontecendo e a meditação começou.
Na calçada, o líquido descia veloz.
Foram levadas as formigas que estavam em sua direção. Outras, extremamente inquietas, foram separadas e não sabiam como chegar ao chamado “ninho”. Ficaram isoladas.
A sujeira deixava a água turva, esbranquiçada. Uma pequena formação de bolhas era o sinal que estava mesclada com algum produto químico, talvez sabão em pó. Pequenos insetos, também levados, mexiam-se, sem firmeza. Outros estavam imóveis e cansados, entregues ao destino. Na visão dos mais fracos, a pressão era vista como uma correnteza gigante.
E as pedras!?
As menores foram tragadas. Outras, maiores, represavam o líquido. Isso, entretanto, ocorria por pouco tempo. Como uma cobra, a água fazia contornos lentamente. Outros obstáculos foram envolvidos e também transpostos.
Numa pequena depressão entre as emendas da sarjeta, entrou num buraco e sumiu.
Francisco estava atento e, agora, intrigado. Será que voltará? Não demorou e surgiu veloz, ganhando força. Lá diante, quase na esquina, observou que um papel de balas girava em círculo bem ao lado do bico de mamadeira.
Quuanto mais observava esses detalhes, procurava compreendê-los. Alguns galhos secos eram utilizados como barco por uns minúsculos animais. Insetos de várias cores. Chegavam até a brilhar como óleo diesel em rio poluído.
Outro fato que chamou a curiosidade de Hidelbrando foram as centenas de flores das árvores locais, conhecidas como Sibipirunas. As folhas verdes e as flores amarelas, derrubadas pelo vento, como se fossem sentimentos de cada cidadão, seguiam seus objetivos, distantes de tudo que as prendiam até então.
Um pouco mais abaixo, bem próximo a um terreno baldio, o couro prensado e seco, provavelmente de um anuro de pele verrucosa, tomava rumo com a água. Um sapo que não saltou na hora certa. Quem sabe um girino despreparado pego pelo trânsito local.
Francisco parou para observar todo esse processo e, naquele dia, resolveu ir mais além. Deixou o seu carrinho ali e percorreu aquela “pororoca” miniatura por 20 metros. Na mesma velocidade, acompanhou a descida.
Bem próximo da esquina, reparou que a água carregava o que estava no cocho do chamado “meio-fio”.Uma moeda do ano de l973 – sem valor – foi deixada levar. Sua cifra era de 10 centavos. Há pouco mais de 20 anos correspondia a pelo menos l0 picolés. Hoje não compra nem o palito.“Se me abaixo para pegá-la é capaz de dar um treco nas minhas costas e, então, vai sair mais caro o molho do que o peixe”, pensou.
No cruzamento da Rua Boa Vista com outra, um pouco além, Francisco encontrou uma correntinha. Pela análise, trata-se de uma gargantilha bem feminina. Estava escurecida e suja. Imaginou se estaria presa a alguma cruz em forma de pingente. Procurou pela peça até com insistência. Onde estaria? Naquele ponto, a umidade se transformara em lama. Dobrou os joelhos forçando a vista. Em vão.
Ao levantar o rosto, atraído por um enorme zumbido, notou a aproximação de um caminhão de transportes. Cinco eixos e 16 pneus cortaram lentamente aquela enxurrada.
Uma cena que lembrou Moisés atravessando o mar. Mesmo assim, distante dos seus olhos, a água continuou a descer.
As marcas deixadas pelas rodas chegaram bem próximas ao carrinho de picolés, numa umidade artificial e paralela, sem força para suportar o calor por mais de 4 minutos.
Conforme retornou ao ponto de origem, as marcas foram se evaporando.
Decorridos alguns instantes, recompôs seus pensamentos.
A sensação de calor naquele instante fazia a impressão de uma temperatura bem superior. Dava para fritar um ovo no betume do asfalto. Num ímpeto de nostalgia, ficou perplexo. Poucas vezes e de forma tão detalhada, parou para observar esse mundo paralelo.
A esse tempo, respirou firme e convicto. Deveria prosseguir enquanto necessário. Ofegante, quase nos altos do bairro, aproximou-se de um portão. Um sobrado ao fundo e um jardim bem cuidado demonstravam que o morador, primeiro tinha bom gosto e, segundo, não descuidava da grama. Impecável!
Apertou a campainha e um rapaz foi a seu encontro.
Sisudo, alto, e com o rosto sonolento, cumprimentou-o.
- Como vai “seo Chico?”.
Hidelbrando reconheceu Anselmo, bancário de uma agência local. Eram amigos de longa data. Pediu-lhe um copo d’água. O rapaz foi prestativo, entretanto, ao retornar do interior da residência, apenas – e somente apenas – um copo com água trazia nas mãos. Em outros tempos, o anfitrião deveria trazer sempre uma garrafa, caso necessitasse mais. Espantado, mas discreto, nem observou a falha no gesto de Anselmo.
Servindo-se, agradeceu e voltou à labuta.
Seu corpo estava insatisfeito. Para amenizar a situação, resolveu chupar um de seus picolés. Seu predileto era o de uva, no entanto, como já tinha acabado, o jeito foi se deliciar com um de limão. Para aquele momento, era sem dúvida nenhuma, até o mais indicado.
Após esses fatos todos, continuou seu trabalho. Agora se encontrava no jardim Ipanema. As vendas eram razoáveis. Melhorou quando, no retorno, esteve no loteamento jardim das Paineiras.
Depois de uma ou duas horas, resolveu retornar pelo mesmo caminho.
A rua Boa Vista estava deserta. A maioria das casas estava fechada. Nenhuma criança.
Apenas os cães latiam quebrando o silêncio. Naquele tronco de árvore em que esteve um pouco antes, parou apenas para amarrar o cadarço de um dos sapatos.
No muro, de onde saía a água, nem sinal de umidade. Não via ninguém no lado de dentro e a casa, apesar da janela aberta, parecia abandonada. O meio-fio estava sem pedras. Os panfletos estavam todos secos e retorcidos. Também rasgados pela força da natureza ou pelos pés apressados de um ou outro cidadão que, porventura, passou sem perceber aqueles acontecimentos.
Na esquina onde encontrou a correntinha, Francisco teve uma estranha sensação. Pálido, pensou que iria desmaiar. Num gesto, do qual até se arrepia ao lembrar, dobrou os joelhos e quase caiu. Ainda que de forma rápida, seus olhos escureceram.
De toda a água que passou, a única umidade estava num buraco, que travou uma das rodas do seu carrinho. Um brilho forte seguido de um clarão inexplicável ofuscava a sua retina. Em segundos ganhou forças. No movimento para destravar o seu veículo, algo foi jogado para fora da água pressionado pelas ondas que se formaram pelo movimento. Era o pingente em forma de cruz que foi procurado detalhadamente por ele horas antes. Diferentemente da correntinha, estava limpo e brilhante como se pedisse mudanças em sua vida. Afinal, estava observando um sacrifício salvador, pensou Hidelbrando.
E Francisco retomou seu caminho meditando sobre quantos já não teriam passado, sem perceber, tão pertinho do CRISTO.

(*) O autor é venceslauense e escreve semanalmente para o www.GuiaVenceslau.Net na coluna Opinião

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Um pulo na lua
Por: Sérgio Luís da Silva Vargas

Quando Gildinha viu aquela lua-de-prata decidiu:
- Vou ser astronauta!
- Ora vejam, astronauta mulher!
- Por que? Não existe?
- É claro que não!
- Pois então eu serei a primeira.
- Logo você que tem medo de subir no telhado? Duvido que chegues à lua!
- Mas até lá eu já cresci e gente grande não tem medo de nada!
- Ora se não tem! Mamãe tem medo de baratas.
- Ah, barata é barata!
- Pois saiba que eu ainda sou menino e já não tenho medo de nada.
- Não tem! Não tem! Tu tens medo do escuro.
- Maninha, não é medo! Eu tenho é receio!
- Receio não é medo?
- Claro que não! Receio é receio e medo é medo.
- E o que é receio então?
- Receio é... receio é...
- Vamos diga. Não fiques aí gaguejando!
- Receio é só um medinho à toa!
- É, mas tu choras se te deixam no escuro.
- É que quando se tem receio também se chora!
- Pois eu não tenho receio e nem medo de ir á lua.
- Papai contou-me que a cadela Laika foi e não voltou mais.
- Pois eu vou à lua procurar por ela e a trarei de volta.
- Cadela idiota, tal qual as meninas. Ouvi dizer que era só ela ter apertado um botão que dizia: - voltar para casa. Te garanto que se fosse o Sultão ele não se perderia.
- O que?! Este cachorro pulguento? Se fosse ele iria parar no sol. Viraria cachorro-quente torrado. Um baita de um bocó!
Gildinha jurou ter visto Laika pulando lá na lua.
- Tadinha, tão longe de casa!

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Exame de próstata
(*) Por Sérgio Luís da Silva Vargas

Os exames feitos em seu Juvêncio deixaram o médico da pequena localidade um tanto preocupado:
- Teria que ser feito um exame de toque, mas eu é que não vou enfiar o dedo no rabo deste guasca, mais grosso que tramela de rancho. Ele trata tudo à ponta de faca! Vou mandá-lo para Porto Alegre.
- Acho melhor mesmo. Disse a enfermeira.
- Seu Juvêncio o senhor terá que ir à capital fazer
mais alguns exames.
- O doutor é quem manda! Vou só terminar de colher um milho que ainda tenho e já me vou.
- Isto, mas vá o mais rápido possível.
- A semana que vem já devo estar indo doutor.
Juvêncio fez o que tinha que fazer vestiu a melhor pilcha, pôs na mala de garupa pão com salame e se mandou.
Na rodoviária pegou um táxi:
- Vamos pra onde senhor?
- Toca direto para o hospital de clínicas!
- O amigo veio fazer o que na capital?
- Vim fazer o exame de prósta.
- Ah, o exame de próstata!
- Esse mesmo. Vim num pé e já volto noutro.
- O amigo não está receoso com o tal exame?
- E eu lá sou homem de ter medo de alguma coisa mano-velho? Não tenho medo nem de assombração!
- Não estou falando de ter medo! Eu mesmo tenho
um certo receio de fazê-lo.
- Mas o índio véio é homem ou um pé de chicória?
- Bem! É que é um tanto constrangedor...
- Meu finado pai, que Deus o tenha, dizia-me que constrangedor é homem beijar homem. O resto...
- Acho que o amigo tem razão. Vou tratar de
marcar o meu exame logo-logo.
- Pois faça isso, não deixes que o mal se alastre!
- Chegamos, senhor!
- Muito obrigado.
Seu Juvêncio ficou aguardando na sala de espera por quase duas horas. Já estava nervoso.
- Seu Juvêncio pode entrar.
- Já não era sem tempo! Esperei mais que gestação de mula.
- Dispa-se e deite-se por gentileza.

Contam lá em São João da Urtiga que tiveram que chamar os brigadianos para pôr fim naquele entrevero. Era o seu Juvêncio correndo pelado pelos corredores do hospital, com um facão na mão, dando pranchaços no lombo do pobre médico:
- Vem cá, doutorzinho de merda! Vou te ensinar a respeitar um pai de família.

(*) O Autor é de Porto Alegtre - Rio Grande do Sul

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Minha sogra é um anjo
Por: Sérgio Luís da Silva Vargas

Minha sogra sofria de catalepsia. Não queiram saber como é traumatizante uma sogra voltar do próprio enterro. Comigo aconteceu três vezes. Era aquele vai e volta danado. Tive que fazer um tratamento psicológico.
Na primeira vez, tudo estava indo tão bem, até que no melhor da festa a velha resolveu levantar-se. Gritaria geral:
- Seus desgraçados pensavam que iam me enterrar viva, mas não foi desta vez!
- Ah, mamãe que alegria! Minha esposa gritou feliz da vida.
- Ah, minha sogrinha que felicidade! Dizem os amigos que fiz a cara mais decepcionada do mundo.
Na segunda vez, um dos netos passou pelo caixão e disse:
- A vovó ainda está quente!
- Será? Pensei.
Fui lá, discretamente e diminui a temperatura do ambiente.
- Bah, mas tá frio aqui hem!
- Não acho. Tô até com calor!
Quando parecia que ia ser desta vez, a velha levanta-se novamente do caixão, dê-lhe a espirrar.
- Mamãe que alegria! Minha esposa de novo.
- Sogrinha querida, que susto!
Na terceira vez, me precavi. Fiquei o tempo todo em volta do caixão com a mão na testa da velha, segurando-a para que ela não se levantasse.
Algumas amigas de bingo, da jararaca, chegaram a comentar:
- Nossa, como ele adorava esta sogra!
- É, ele é um amor!
Mas bastou um pequeno descuido meu, fui atender a um telefonema, e lá ela pulou outra vez do caixão, espalhando flores para tudo que era lado, com o dedo em riste apontado para mim:
- Pode tirar este sorriso da cara que eu voltei.
- Mamãe que alegria! Minha esposa, a única sincera no local.
- Sogrinha do meu coração, que felicidade!
Ano passado ela morreu de novo, só que desta vez eu mesmo tomei as rédeas de tudo.
- Eu preparo o corpo da minha sogra!
- Obrigado querido!
Enchi a boca da velha de algodão, amarrei os pulsos com esparadrapo, coloquei bastante cola no fundo do caixão e pus um bilhete no bolso dela: não aceito devolução. E só por precaução aumentei o som ambiente da capela, pra ninguém ouvir algum ruído.
Desta vez ela se foi mesmo.
Fiquei tão feliz com a minha empreitada, que com o dinheiro da herança, decidi montar uma empresa especializada em enterros de sogras.
- Vou fazer fortuna, a "QUE O DIABO TE CARREGUE LTDA" é o maior sucesso!

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“Águas da Redenção”
enviado por César Antonio Marques,
funcionário público municipal

Estamos no ano de 2010, mês de fevereiro, 39 graus à sombra e a praia fluvial do Complexo Venceslauville/Eldorado está repleta. Pessoas vindas de todo o interior do Estado de São Paulo, alguns Paranaenses, Mato-Grossenses e até Mineiros que deixaram o seu “Rio Grande”, para conhecer o colossal Rio Paraná, que agora pertence, ao menos por alguns quilômetros, aos Venceslauenses.

Presidente Venceslau é uma cidade margeada por um lago de proporções gigantescas, como fora Presidente Epitácio um dia e que lutava para ser uma estância turística e ter a hegemonia econômica da região.

Com seus quase 300 mil habitantes, transformara-se numa cidade vibrante, agitada, multicolorida e multicultural, agora conhecida em todo o Estado e parte do Brasil.

Gente de todos os confins veio fazer parte de nossa população; até mesmo estrangeiros, que saiam de seus países em busca de novas oportunidades que agora oferecíamos, principalmente na indústria do turismo e do entretenimento que cresceu e cresce de forma vertiginosa: hotéis, restaurantes, casas noturnas, cassinos, complexos recreativos e o surgimento da inesperada praia fluvial, com seus sete quilômetros de extensão, dividindo seu espaço com parte do agora luxuoso condomínio Venceslauville, o Novo Jardim Eldorado e parte do Horto Florestal, a que não desapareceu submersa no colosso das águas. Da penitenciária II, via-se apenas as pontas das quatro torres de vigilância, tais como quatro “icebergs” de concreto, com no máximo 2 metros de altura e que insistiam em demarcar um local que outrora quase fora aproveitado como colônia de férias para trabalhadores, não fosse a brutal invasão das águas e a destruição quase total de suas estruturas. Era uma verdadeira ruína no melhor estilo greco-romano.

Nossa população agora é formada também por Epitacianos, Caiuaenses e outros cidadãos que fugiram do maior desastre natural provocado pelo homem, conhecido no mundo até agora: o super enchimento do lago artificial da Hidrelétrica de Primavera, causado por um erro de cálculo dos engenheiros responsáveis pela gigantesca obra, que foram obrigados, em última hora, a aumentar a altura das barragens, para que a água não avançasse e destruísse, prematuramente, a usina recém concluída.

Pessoas passeavam pela bela praia fluvial, formada agora em território Venceslauense, comentando a terrível catástrofe (para nós, uma quase catástrofe) de doze anos atrás. A dor daqueles que perderam tudo e tiveram que recomeçar a vida numa outra cidade. O desespero de famílias inteiras que viram a elevação das águas num ritmo alucinante, naquele fatídico maio de 1998. Infelizmente, ainda houve perdas humanas, aqueles que não tiveram tempo de providenciar embarcações seguras para seu transporte por falta de posses, ou que ficaram aguardando ajuda prometida por políticos inescrupulosos, mas que nunca foram cumpridas, sem contar a perda do patrimônio turístico e natural que era aquela famosa estância.

Tanto ela, quanto a minúscula Caiuá, agora jaziam nas profundezas do gigantesco lago, formado pelas águas do que um dia fora um caudaloso rio mas que agora se transformara num verdadeiro mar, com seus quase 180 quilômetros de extensão, por mais de 40 quilômetros de largura, sendo que 30 desses dentro do território Paulista.

Apesar da grande destruição ecológica e do desaparecimento quase total de nossa antiga economia de base, a pecuária, a paisagem criada pelo cataclismo, agora, era belíssima, atraindo, curiosos, turistas, jornalistas, estudantes e até cientistas de várias partes do Brasil e do mundo.

Diversos escritórios internacionais de pesquisa tecnológica haviam aberto suas filiais em nossa cidade para estudar o fato. Universidades, das maiores do mundo já tinham instalado suas campi. A cidade já havia se tornado inclusive um pólo de atração cultural, fato nunca antes imaginado em épocas passadas.

Todos se perguntavam, até nossos dias, como aquilo houvera acontecido. Teria sido um fato único na história mundial? Seriam verdadeiros rumores que revelavam estórias mirabolantes de sabotagem, de erro provocado? Há quem diga até, que agentes secretos Norte-Americanos infiltraram-se no corpo técnico da antiga CESP, responsável pela monstruosa barragem, provocando o enorme equívoco que até hoje não fora desvendado, tudo isso com interesses comerciais.

Especulações sobre o fato eternizariam-se nas conversas dos inúmeros passantes e freqüentadores da deslumbrante e quilométrica praia do complexo Venceslauville/Eldorado, com seus imponentes edifícios de apartamentos, hotéis suntuosos e nababescos condomínios residenciais, que, absolutamente, mudavam por completo o perfil da obsoleta e provinciana Presidente Venceslau de 1998.

A tradicional Feira Agropecuária do Município foi praticamente extinta, restando apenas alguns resquícios do passado, como alguns leilões de gado que eram restritos a poucos criadores deste tipo de animal e que agora perdia de longe para outra atividade econômica, muito mais lucrativa e divertida: o ecoturismo.

A pesca esportiva preponderava, Presidente Venceslau tornara-se hoje uma cidade voltada aos esportes náuticos e em praticamente todos tínhamos um campeão a nível nacional: jet-ski, laser, iatismo e outros.

Fora construído até mesmo uma raia olímpica para treinamento de remo e uma pista aquática para corrida de lanchas.

Era impressionante a revolução causada pela invasão das águas em nossa pequena cidade; os mais velhos não se cansavam de admirar a beleza do local e a vibração da nossa juventude em seus acampamentos de férias, na prática de seus esportes, nos seus shows ao vivo realizados sob a luz da lua, na areia da praia, com público nunca inferior a 20 mil pessoas. Nosso orgulho permitia-nos achar que já tínhamos a nossa Copacabana, a nossa Barra da Tijuca. Casais se conheciam e se apaixonavam ao som inebriante de nossas águas azuis que se confundiam no horizonte com o azul do céu. Aqui se casavam, criavam seus filhos e nunca mais saíam daqui, pois faziam parte de nossa maravilhosa natureza.

Compositores já cantavam as maravilhas desta cidade e as divulgavam em todos os cantos do País, atraindo mais e mais pessoas, que se entusiasmavam por nossa terra mesmo sem antes conhecê-la. Os políticos, como de costume, se aproveitando do inchaço da população, faziam mais e mais promessas eleitoreiras, na busca de votos. Alguns até mesmo já queriam que a capital do Estado fosse transferida para cá, em função da efervescência cultural e da posição estratégica da cidade.

Apesar de todo o desenvolvimento, de todo arrojo, as pessoas que aqui viviam antes da transformação, os chamados “Venceslauenses da gema” ainda se angustiavam: o que aconteceria nos dias que avançavam para o futuro? Será que perderíamos nossa identidade e a tradição de nossas famílias com a desenfreada invasão de novos moradores? Os nossos costumes seriam aniquilados pela horda de exploradores que aqui aportavam? E aquela saudável rivalidade que nutríamos ante a vizinha cidade, agora inundada pelo colossal lago? Nossas características caipiras, nossa hospitalidade e simplicidade mudariam de uma vez por todas? Perderíamos o nosso sossego de cidade interiorana?

Teríamos que disputar a hegemonia da região com a então superdesenvolvida Presidente Prudente? Talvez fosse cedo demais.

Quem sabe teríamos encontrado nosso destino de cidade turística acidental e, assim, resolvido nossos problemas mais cruciais, acreditavam alguns; mas a verdade é que restavam duas cidades sepultadas nas entranhas do que agora chamávamos de “águas da redenção”.

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SEVERINO DA MARIA
Enviado por Francini Virag

“O nome dele era Severino,

Severino da Maria, lá do bairro da grota funda.

Severino da Bahia, Severino da Maria.

Era conhecido e estimado.
Veio da Bahia ainda criança, ia pra São Paulo como tantos outros.
Mas a família foi morrendo aos poucos pelo caminho e acabou ficando em Minas Gerais.

Pai de Eldino, Evilásio, Elduano, Elimere, Eustáquio, Emiliano, Elenaldo, Eufrásio, Enivaldino e por fim de Eulália Maria.

Pai de dez.

Dez vidas, dez histórias, dez alegrias.

Dizia que por ele seriam vinte, mas dona Maria quase morreu quando Eulália nasceu e teve que parar por aí.

Contava “causos” feito um bom mineiro.

Dizia que não sabia mais quantos anos tinha, e se insistíamos ele dizia: Sou menino novo e ria alto.

Sua gargalhada era boa, era alta, aberta, sua gargalhada era gostosa de ouvir.

Contava que sua infância fora feliz.

Muito pobre morava com a família no sítio de um bom homem que em troca do trabalho na roça dava casa e comida. Mas não reclamavam da sorte.

Mas nos fins de semana brincava em rios, brincava no meio das plantações, montava touro bravo e caia no chão.

Ir pra escola era coisa de rico.

Com seis anos já enfrentava a lida de sol a sol.
A mãe doente, o pai cansado e quatro irmãos eram oito ao todo.

Mas quatro morreram na viagem.

Morreram de febre, doença da mata, morreram de fome e sabe lá do que mais.
A mãe nunca mais foi a mesma.

Contava Severino que nunca teve ambição de sair dali.

Mas com treze anos sua mãe morreu e seu Pai desgostoso largou tudo e caiu no mundo. Nunca mais o viu.

Severino tinha treze, e seus irmãos dez, oito e seis.

Triste sina.

Triste sina que nada regateia o Severino de Maria.

Deus quis assim.

Já mais velho, conheceu Maria e se apaixonou.

E pra contar esta história Severino ainda se emociona.

Mas pra falar disso fala de João, de Mané, de José... Dos amigos e das festas do lugarejo de São Sião.

Festa pra mais de dia.

Quando terminava a colheita o patrão deixava a gente se divertir.

Severino conheceu Maria, namorou, noivou e casou. Tudo nos “conforme”.

Os filhos vieram.

A luta continuou.

Severino da Maria.

Severino da Bahia.

Severino lutador.

Não tinha calor, frio ou dor que o impediam de trabalhar.

Tinha filhos, a Maria, a vida pra cuidar.

Não tinha estudo, mas tinha muito.

Tinha coragem pra enfrentar tudo.

Não tinha medo, não tinha tempo pra sonhar o Severino.

Mas tinha amor no coração.

Criou dez filhos.

Dez vidas, dez histórias, dez alegrias.

Severino não queria ficar rico.

Não tinha ambição.

Severino não tinha maldade.

Não tinha inimigos.

Severino da Maria.

Severino da Bahia.

Mineiro, trabalhador.

Severino da coragem.

Severino menino.

Sua vida é uma lição

“Severino sabe não...”.

Mas é você quem sabe o que é o verdadeiro amor,

Que sabe que o que importa é ser simples e entender a simplicidades nas coisas.

Que precisamos tão pouco para ser felizes.

Ah! Severino...

Severino da Maria...”

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