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Luiz Antonio Ribeiro dos Santos*

A Tempestade Incessante

O sistema prisional transformou-se numa fábrica de doentes que são reféns dos presos em rebeliões e escravos de um patrão sanguinário e desumano.

“Depois da tempestade, vem a bonança”. Este é um ditado que jamais poderá ser empregado ao sistema prisional paulista. Diante do caos que assola a instituição há décadas, a expressão correta seria: “Depois do ‘Furakão’ vem o rescaldo e outra rebordosa”. E as tragédias vão surgindo uma após outra.

Com a experiência de quem convive com o risco calculado que toda profissão oferece, o SIFUSPESP tem alertado o Governo que é necessário tratar as questões por nós apontadas com maior responsabilidade. Há tempos enviamos à SAP, aos cuidados do Sr. Secretário, uma pauta de reivindicações contendo mais de vinte itens. No entanto, o que se constata ainda hoje é a prática do autoritarismo, más condições de trabalho, jornadas excessivas, insuficiência de funcionários para execução das funções mínimas exigidas pela LEP. O que podemos notar é um Estado apático diante do crime organizado, omisso, sem ações direcionadas à responsabilidade social. O mais cruel é percebermos que o Governo adota o método de marginalizar, de forma deprimente, aqueles que deveriam zelar pela reintegração dos sentenciados à sociedade.

"Se as autoridades não tiverem uma visão humana, somada a um planejamento sério e uma política carcerária responsável, sem dúvida seremos varridos do cenário como palha em vendaval."

A administração se resume em inaugurar painéis publicitários, dando ênfase à visão meramente mercantilista e eleitoreira, sem se importar com o ser humano. As organizações internacionais, como a OIT e a OMS reconhecem nossas atividades como uma das mais insalubres e danosas da atualidade e, em se tratando do Estado de São Paulo, o grau de periculosidade é ainda maior, o que torna nossa função mais estressante que a própria pena do sentenciado, pois nenhum deles tem a carga tributária que temos nós, trabalhadores.

Faltam dados estatísticos que indiquem o grau de contágio traumático no dia a dia e para os que são submetidos a torturas em rebeliões. Não existe uma avaliação periódica dos servidores nem no campo físico ou psicológico.

 

No transcorrer da carreira, o servidor vai sendo acometido por moléstias provenientes da tensão e acaba definhando-se gradativamente com uma gama de sintomas que resultam em doenças degenerativas, disfunções orgânicas, abalos psíquicos, insanidade mental irreversível e por fim, a morte prematura. A licença para tratamento acarreta descontos no salário que ultrapassam 30%, um vilipêndio vergonhoso que caracteriza a política inconseqüente dos neo-liberais. O sistema prisional transformou-se numa fábrica de doentes que são reféns dos presos em rebeliões e escravos de um patrão sanguinário e desumano. As calamidades acontecidas no interior dos presídios jamais foram mapeadas pelo Estado, bem como os acidentes com servidores não constam em livro algum. Esses indicadores são mascarados pela covardia de um Estado que deveria praticar a justiça, mas é o maior infrator. Estamos há 10 anos sem correção de salários, e no mesmo período a população carcerária triplicou. Em contrapartida, o governo reduziu o número de funcionários por unidades prisionais e vem ainda com seus senhores feudais pulverizados em todo o interior paulista, traçar estratégias de terror, para esfolar em jornadas de até 16 horas e convocações excessivas aos já penalizados trabalhadores do sistema prisional.

Vemos que diante desta realidade e sem pessimismo exagerado, estamos mesmo é no epicentro do cataclismo que assola os cárceres do Estado. Se as autoridades não tiverem uma visão humana, somada a um planejamento sério e uma política carcerária responsável, sem dúvida seremos varridos do cenário como palha em vendaval. O salário dos trabalhadores do sistema prisional hoje não é suficiente nem para comprar os antidepressivos e os controladores de pressão arterial, a que somos submetidos a ingerir, por culpa da insegurança e da instabilidade instalada nos presídios paulistas.

Nossos familiares acompanham, passivos, esta nossa agonia, o que aumenta mais a indignação diante um governador que “fala pouco, trabalha muito”. Bem que poderia ao menos se dar o trabalho de falar a verdade sobre os grandes presépios construídos às margens das rodovias para depositar delinqüentes e escravizar pais de famílias, obrigando-nos a viver com salários defasados, a passar necessidades devido a debilidades financeiras e com nervos expostos, saúde abalada e sem a perspectiva de um dia viver com dignidade e ter o orgulho de contribuir com a paz e a justiça. Merecemos o valor que nos é negado.

(*) O autor é Diretor de Formação Sindical do SIFUSPESP.
Artigo originalmente publicado no informativo “União Prisional
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