| “Depois
da tempestade, vem a bonança”. Este é um ditado
que jamais poderá ser empregado ao sistema prisional paulista.
Diante do caos que assola a instituição há
décadas, a expressão correta seria: “Depois
do ‘Furakão’ vem o rescaldo e outra rebordosa”.
E as tragédias vão surgindo uma após outra.
Com
a experiência de quem convive com o risco calculado que toda
profissão oferece, o SIFUSPESP tem alertado o Governo que
é necessário tratar as questões por nós
apontadas com maior responsabilidade. Há tempos enviamos
à SAP, aos cuidados do Sr. Secretário, uma pauta de
reivindicações contendo mais de vinte itens. No entanto,
o que se constata ainda hoje é a prática do autoritarismo,
más condições de trabalho, jornadas excessivas,
insuficiência de funcionários para execução
das funções mínimas exigidas pela LEP. O que
podemos notar é um Estado apático diante do crime
organizado, omisso, sem ações direcionadas à
responsabilidade social. O mais cruel é percebermos que o
Governo adota o método de marginalizar, de forma deprimente,
aqueles que deveriam zelar pela reintegração dos sentenciados
à sociedade.
"Se
as autoridades não tiverem uma visão humana,
somada a um planejamento sério e uma política
carcerária responsável, sem dúvida seremos
varridos do cenário como palha em vendaval." |
A
administração se resume em inaugurar painéis
publicitários, dando ênfase à visão meramente
mercantilista e eleitoreira, sem se importar com o ser humano. As
organizações internacionais, como a OIT e a OMS reconhecem
nossas atividades como uma das mais insalubres e danosas da atualidade
e, em se tratando do Estado de São Paulo, o grau de periculosidade
é ainda maior, o que torna nossa função mais
estressante que a própria pena do sentenciado, pois nenhum
deles tem a carga tributária que temos nós, trabalhadores.
Faltam dados estatísticos que indiquem o grau de contágio
traumático no dia a dia e para os que são submetidos
a torturas em rebeliões. Não existe uma avaliação
periódica dos servidores nem no campo físico ou psicológico.
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No transcorrer da carreira, o servidor vai sendo acometido por moléstias
provenientes da tensão e acaba definhando-se gradativamente
com uma gama de sintomas que resultam em doenças degenerativas,
disfunções orgânicas, abalos psíquicos,
insanidade mental irreversível e por fim, a morte prematura.
A licença para tratamento acarreta descontos no salário
que ultrapassam 30%, um vilipêndio vergonhoso que caracteriza
a política inconseqüente dos neo-liberais. O sistema
prisional transformou-se numa fábrica de doentes que são
reféns dos presos em rebeliões e escravos de um patrão
sanguinário e desumano. As calamidades acontecidas no interior
dos presídios jamais foram mapeadas pelo Estado, bem como
os acidentes com servidores não constam em livro algum. Esses
indicadores são mascarados pela covardia de um Estado que
deveria praticar a justiça, mas é o maior infrator.
Estamos há 10 anos sem correção de salários,
e no mesmo período a população carcerária
triplicou. Em contrapartida, o governo reduziu o número de
funcionários por unidades prisionais e vem ainda com seus
senhores feudais pulverizados em todo o interior paulista, traçar
estratégias de terror, para esfolar em jornadas de até
16 horas e convocações excessivas aos já penalizados
trabalhadores do sistema prisional.
Vemos
que diante desta realidade e sem pessimismo exagerado, estamos mesmo
é no epicentro do cataclismo que assola os cárceres
do Estado. Se as autoridades não tiverem uma visão
humana, somada a um planejamento sério e uma política
carcerária responsável, sem dúvida seremos
varridos do cenário como palha em vendaval. O salário
dos trabalhadores do sistema prisional hoje não é
suficiente nem para comprar os antidepressivos e os controladores
de pressão arterial, a que somos submetidos a ingerir, por
culpa da insegurança e da instabilidade instalada nos presídios
paulistas.
Nossos
familiares acompanham, passivos, esta nossa agonia, o que aumenta
mais a indignação diante um governador que “fala
pouco, trabalha muito”. Bem que poderia ao menos se dar o
trabalho de falar a verdade sobre os grandes presépios construídos
às margens das rodovias para depositar delinqüentes
e escravizar pais de famílias, obrigando-nos a viver com
salários defasados, a passar necessidades devido a debilidades
financeiras e com nervos expostos, saúde abalada e sem a
perspectiva de um dia viver com dignidade e ter o orgulho de contribuir
com a paz e a justiça. Merecemos o valor que nos é
negado.
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